Inicio

Este jornal tb é teu. Colabora. Podes enviar-nos os textos ou linkar aqui a tua página. Oferecemos-te uma plateia de milhares de pessoas. Junta-te a nós...

    Perigo no parque
Eram cerca de 4 horas da madrugada ( sexta feira, 17 maio), junto do Pavilhão dos Desportos, no Parque Eduardo VII, quando Joy, 21 anos, brasileiro, e prostituto foi abordado por um dos 5 jovens que se encontravam no interior de uma viatura, "penso, que era um Forde vermelho escuro", que lhe ofereceu 20 euros em troca de sexo oral. "Fiquei um pouco desconfiado, porque eles n tinham cara de quem paga para fazer sexo, mas como estava aflito para fazer algum (dinheiro), aceitei. Mas quando ia a entrar dentro do carro, no banco de trás, por sorte, um deles, ao desviar-se, deixou cair uma barra de ferro preta. Sem pensar desatei imediatamente a correr em direcção á estação de metro. Se ele não tivesse deixado cair a barra de ferro, podia estar agora morto...", conclui.

Cindy, transexual brasileira, e «irmã» de Joy, que se encontrava noutra parte do parque, tb ia caindo nas garras do bando de jovens delinquentes homofobos. "Estava a conversar com um rapaz, bissexual (no parque das merendas), sobre os pinheiros quando os vimos vir em direcção a nós. Nesse instante todos os gays que se encontravam por ali ( "dois brasileiros e um português"), desapareceram imediatamente. Fiquei em pânico porque sabia que o meu irmão estava no local de onde eles vinham, e corremos em direcção á saída do parque. Quando eles nos viram a correr lançaram-se na nossa direcção, perseguindo-nos até aos limites do  parque... Fiquei muito aliviado quando percebi que o meu irmão tb tinha conseguido escapar. Se eles nos têm agarrado, nem sei o que nos podia ter acontecido...", relatou-nos.

Carlos (desempregado), 26 anos, que se encontrava a conversar com Cindy, teve de voltar ao parque, pouco depois. Mas só o conseguiu fazer, escoltado por dois policias.

Farto de ser assaltado, e de ter de voltar para casa, em Mafra, a pé, ele decidiu passar a esconder a carteira na toca de um pinheiro. "Se não fosse a Cindy a faze-lo, eu nunca teria ligado para a esquadra, porque já tive muito más experiências com policias dentro e fora do parque, mas eles foram correctíssimos e levaram-nos ao local onde eu escondi a carteira, sem fazer demasiadas perguntas..."revela.

Vidas...

Cindy: "Eu quero muito voltar para o meu Brasil mas só o posso fazer quando tiver ganho dinheiro suficiente para montar o meu salão de cabeleireiro. Até lá vou ter de me sujeitar a este tipo de vida, porque tb tenho uma irmãzinha de 3 anos para alimentar e ninguém me dava outra oportunidade de trabalho..."

"Eu já passei por muito tipo de dificuldades e sofrimento, apesar de só ter 22 anos. Os meus pais abandonaram-nos quando descobriram que andávamos com homens. E depois, quando a minha mãe morreu com um cancro, o meu pai vendeu a casa e pôs a minha irmã de 2 anos tb na rua... "


Joy: "Eu só quero voltar ao Brasil quando tiver juntado dinheiro suficiente para abrir o meu barzinho. Talvez, daqui a um ano, se tiver sorte..."

Carlos: "Se eu pudesse nunca mais punha os pés no Parque. Mas se o não fizer vou engatar para onde ? O problema é que não existem opções melhores. Só se for os bares ou saunas, mas ai temos de pagar e nem sempre há dinheiro para isso..."

Para tantos outros gays como o
Carlos, a sua vida sexual ressume-se ao sexo em locais como o Parque, ou em saunas. Não lhe perguntamos a idade, mas não aparenta ter mais de 25 e na semi escuridão do parque parece ainda bem mais novo. Por isso estão sempre a perguntar-lhe a idade. E o seu ar tão masculino e jovem não deixa quase ninguém indiferente. "Sou versátil. Mas toda a gente acha que sou só activo. Ás vezes, até penso em pôr um ar mais afeminando para ver se espanto os passivos e atraio algum activo...O problema, é que os gays andam todos cada vez  mais passivos. E só passivos.  Gostava de encontrar um namorado. Mas ainda não me apareceu ninguém que me conseguisse agradar o suficiente. Estou um pouco farto de, quase sempre que venho aqui (cerca de 4 ou 5 vezes por mês), ser o "príncipe encantado" de alguém. E gostava de finalmente encontrar o meu. Um romântico versátil..." 

"Nem todas as pessoas são más"

Carlos conta-nos mais um episódio curioso, sobre a última vez em que foi assaltado no Parque, duas semanas, antes, junto ao Pavilhão dos desportos. "Vi um black de calções creme, a conversar com um gay que estava no interior duma viatura, ao longe pareceu-me ter bom aspecto. E na minha ingenuidade, nem pensei que fosse prostituto. Sempre pensei que a zona de prostituição fosse no outro lado. Então, como não apareceu mais ninguém, e ele continuava por ali, decidi passar por lá. Começamos a conversar (interrogou-me de forma insistente, se eu gostava mais de homens ou de mulheres, não se contentando com a minha resposta, quando lhe disse que gostava igual. E quis saber que outros sítios de engate  eu frequentava e se tinha feito sexo nesses locais e com quantos...) e  quis saber tb se eu já tinha estado com alguém nessa noite. Disse-lhe que não, e fiz-lhe a mesma pergunta. Como a resposta dele foi igualmente negativa, sugeri-lhe que fossemos gozar os dois.

Fomos para trás de uns arbustos, ele pôs a picha para fora e pediu-me que a chupasse. Eu nem gosto muito de chupar, mas fi-lo só para lhe agradar e nem sequer fiquei excitado. Quando acabou de se vir, agarra-me no colarinho do blusão, e diz-me, para meu espanto:  "Agora paga aquilo que fizeste". Dá cá um euro. E ameaçou que me dava uma cabeçada caso não lhe obedecesse. Dei-lhe todo o dinheiro que tinha no bolso (3,50 euros). O dinheiro para os transportes...

Se eu tivesse gozado, até tinha sido barato! E o mais curioso, é que eu tinha umas calças e uma camisa nova dentro da mochila, que tinha comprado nesse dia, e ele podia ter-mas roubado tb. Inclusive, o relógio que tinha no pulso... Mas ele nem me revistou os bolsos e acreditou em mim... E ainda se justificou: "Tu já sabias que eu só vou por dinheiro...".

Fiquei um pouco assustado com o que me poderia ter acontecido devido á minha ingenuidade se tivesse tido o azar de cair nas mãos de alguém mais perigoso. E tão perturbado fiquei que não consegui voltar para casa a pé e meti-me no comboio das 5,40, sem bilhete pensando que explicando ao revisor que tinha sido assaltado, ele compreenderia. Foi horrível. O homem tratou-me como se eu fosse um marginal e tentou arrastar-me á bruta para fora do comboio, na estação seguinte. Tive de me agarrar ao banco para conseguir seguir viagem até Mafra. Sempre a suplicar-lhe um pouco de compreensão. Mas qual compreensão ? Acabou por me deixar seguir, mas passou-me uma multa de 50 euros...

Nesse dia foi a gota de água. Jurei para mim mesmo que daí para a frente nunca mais seria compreensivo com ninguém. Fiquei revoltado porque eu sempre tento ajudar e entender toda a gente e quando preciso, nem sempre fazem o mesmo comigo. Nesse instante fiquei com a impressão de que estava rodeado de monstros.

Mas hoje no parque, percebi que não é bem assim depois de ter conhecido a
Cindy.

E quando estava junto á entrada do Terminal do Rossio á espera que abrisse, para apanhar o primeiro comboio, uma senhora que nunca tinha visto antes, que deveria ir para o trabalho, parou ao pé de mim, e perguntou-me se eu tinha dinheiro para o bilhete...  Estas experiências,  ajudaram-me a perceber que nem todos as pessoas são más...         

Comentar 
António Serzedelo:  Os perigos de quem engata em parques e jardins...

Topo da página
Voltar